sábado, 2 de agosto de 2008

Formas de paga(relaciona)mento

É (quase) sempre assim: o cidadão trabalha a vida inteira e dá um duro danado pra manter todas as suas contas em dia, não atrasando nenhuma prestação. O tal do crédito torna tudo possível! O que antes se julgava impossível de comprar fica ao alcance das mãos e, o que pode ser pior, dos olhos. Todos caem na tentação.
É um jogo de conquista, tal qual a sedução. Você sempre quis ter uma televisão daquelas, mil polegadas, tela plana. Com a mesma intensidade, você sempre quis ter um namorado como aquele, tão lindo e inteligente, dono de uma lista de adjetivos que faria inveja até mesmo ao Brad Pitt. É difícil escapar ileso desse jogo. Mais dia, menos dia, o cheque é assinado e a compra está feita, em sabe-se lá quantas prestações.
Comprar a prazo é como construir um relacionamento - tem seus ônus e bônus. A cada folha que cai do calendário, uma quantia da dívida é paga, da mesma maneira que a paixão, antes tão tórrida, diminui gradualmente. A data do vencimento é motivo de alegria - para aqueles que não costumam dar calote, óbvio - em ambos os casos: para o comprador, é menos uma dívida; para o apaixonado, é mais um mês ao lado do amor de sua vida. As semelhanças não acabam por aí, pois o desgaste da mercadoria, que só acontece depois de um tempo de uso, também acontece com o coração. Apaixonar-se machuca.
Tentar evitar eventuais machucados é, no entanto, inútil. A vida é cíclica, a televisão de tela plana também. Mas como eu sou prevenida, não tenho a mínima dúvida: em todos os casos, compro à vista.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

A Escolha

- Qual vestido você prefere? O vermelho ou o azul?
- Qualquer um dos dois, eles são iguais...
- Não, não são iguais. Um é vermelho, o outro é azul. Qual deles?
- Hum, o azul. Gosto mais de azul.
- Tem certeza? Eu gostei mais do vermelho.
- Então fica com o vermelho.
- Mas você disse que gostou mais do azul!
- Mas tanto faz, eu já disse. Eles são iguais.
- Tá certo.

A vendedora, então, pergunta:
- E então, decidiu?
- Sim. Não vou querer nenhum dos dois.

Satisfações

Há uns dias atrás postei um texto "trailler", prometendo que, em pouco tempo, voltaria falando sobre minha vida até o ano de 2006, cheia de tempo, Nescau e Sessão da Tarde. A promessa continua, ainda que tenha sido interrompida por uma declaração de amizade para minha querida Alininha-de-Sapiranga-que-vai-ser-cirurgiã. A você, meu assíduo leitor imaginário, deixo a minha explicação. Minhas promessas sempre são cumpridas - ainda que com um pouco de atraso.

Nãão, Aline. É assim ó...

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Fernando Pessoa

Eu me lembro bem daquele dia. Era o primeiro de outros tantos que passaríamos lado a lado, separadas apenas por uma pequena mesa. Seríamos colegas durante muitos dias, vários meses e, infelizmente, apenas um ano. Isso, no entanto, não nos importava: nosso maior desejo era que conseguíssemos nos separar o mais rápido possível. Ela, na Medicina; eu, no Jornalismo.

Ela era uma garota quietinha, mas não tímida. Foi a única que se dispôs a subir no tablado no primeiro dia de aula, diante da turma inteira, para interpretar uma índia. Tentativa frustrada de um professor de história não muito engraçado, que, apesar de tudo, me mostrou algo que só pude enxergar com clareza depois de alguns meses: aquela era uma pessoa com quem eu poderia contar. Chamava-se Aline.

Não sei dizer ao certo quando foi que nos tornamos amigas. Talvez tenha sido em uma das inúmeras conversas pré-aula, enquanto eu desenrolava o fio do microfone e ela guardava a bolsa na classe (a da primeira fileira, quarta coluna). Pode também ter sido em um dos intervalos, durante os quais apenas descíamos as escadas para comprar balas e pães de queijo da "tia". Mas isso, sinceramente, não é tão importante. O que importa é que, depois de algum tempo, eu já não entendia como não havíamos nos conhecido antes.

O convívio com nossa turma não era o mais agradável: éramos todos muito diferentes e, apesar de todas as promessas de passar no vestibular, nossos objetivos não eram os mesmos. Entre tantas diferenças, contudo, sempre existe um bocado de semelhança. Embora perseguíssemos cada uma o seu sonho, nossa vontade - e força, principalmente - era a mesma. Eu e a Aline queríamos, com todas as forças, aprender. E conseguimos.

Não foram poucos os dias que deixamos de almoçar para assistir a aulas que já nem mais surtiam efeito. Ela sempre acompanhada de uma mini-lata de refri, e eu de minhas lapiseiras que, das dela, tinham de diferente apenas a cor. Acabávamos sendo iguais sem nem querer e, quando tamanha igualdade não estava presente, ela sempre estava disposta a me ajudar. Fosse para enviar mensagens de texto explicando uma questão de matemática, fosse para me contar histórias de jornalistas bem sucedidos. Era uma grande sorte tê-la por perto.

Quando eu tinha medo e não sabia para qual lado seguir, ela estava disposta a me emprestar a irmã para conversar e os ouvidos para ouvir, ouvir, ouvir. Incrível como essa sapiranguense me ajudou, mesmo me conhecendo há tão pouco tempo. Tentar agradecer aqui soaria, no mínimo, patético. Porque traduzir a amizade em palavras nunca dá certo. É inexplicável.

Por isso, antes de soar ridícula, encerro o texto. Acredito na Aline tanto quanto acredito em mim, porque sei reconhecer aqueles que nasceram para vencer e, com toda a alegria do mundo, posso dizer que fazemos parte desse grupo. Eu venci, e agora faço parte da torcida dela. E o que é melhor: tenho certeza de que vou comemorar.


sexta-feira, 25 de julho de 2008

Prévia

Se tem uma coisa que eu adoro falar sobre, essa coisa é a vida que eu costumava levar até o ano de 2006. Talvez porque ela era tão cheia de possibilidades e, o principal, tão cheia de tempo. Hoje em dia eu me pego calculando quantas horas sobrarão para que eu assista à televisão ou leia um livro. É como se o meu dia tivesse apenas duas horas – durante as quais eu sou obrigada a agüentar o sacolejo do ônibus que leva até a Zona Sul de Porto Alegre.

Daqui a alguns dias eu explico o porquê de tudo isso.


quarta-feira, 23 de julho de 2008

No Semáforo

Falar sobre diferentes estilos de vida é uma tarefa simples. Não há dificuldade em encontrar exemplos, tampouco em apontar diferenças: a cada esquina nos deparamos com uma nova realidade.

Em uma dessas esquinas, encontrei o Seu João. Falo dele como se o conhecesse quando, na verdade, uma distância muito maior do que a aparente se instala sobre nós. Chamo-o de João, portanto, na tentativa de diminuir o buraco que existe entre o banco do meu carro e a sua cadeira de rodas.
Deslizando habilmente entre os carros, Seu João empilha seus pertences no que antes era a tampa de uma caixa de sapatos. Balas de goma, pirulitos e chicletes são o seu ganha pão, garantido nos poucos minutos em que o sinal vermelho pára a vida dos motoristas - permitindo ao nobre senhor recomeçar a sua.
O que me intriga não é nossa distância, pois sei que a qualquer momento posso descer do carro e, ao menos no plano físico, cruzar as fronteiras estabelecidas entre dois seres humanos pertencentes a realidades diferentes. Essa aproximação não seria suficiente. No momento do adeus, eu sigo a ordem do sinal verde - vou em frente - enquanto Seu João espera, pacientemente, que a vida lhe deixe começar.

Minha intenção não é - nem nunca foi - a de explicar os motivos que levam a tamanhas discrepâncias. Só quero pensar sobre elas, porque prometi a mim mesma que nunca mais virarei o rosto para não ter de enxergar o óbvio.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Ação!

São os cinco minutos mais angustiantes do meu dia. Durante eles, estamos a sós: eu e o editor de texto do windows, com aquela barrinha piscante sempre à espera do primeiro dígito.
Tenho uma enorme dificuldade para transformar minhas idéias em palavras. É tanto medo que, juro, chego a duvidar se realmente gosto de escrever. Só não chego a acreditar nisso porque, graças aos quase 18 anos de convivência comigo mesma, sei que o meu forte é o drama - que, inclusive, anda de mãos dadas com minha velha companheira, a escrita.
O professor de redação insistia para que eu cortasse os adjetivos e me concentrasse mais nos argumentos. Era com muito pesar que eu via a caneta vermelha riscar meus períodos, todos tão bem construídos e pensados. Ele não perdoava: eu deveria tornar meus assuntos mais reais, fugir do teatro catastrófico e fincar os pés no chão. Conselhos muito bem colocados, eu sei, mas extremamente difíceis de seguir. Não é fácil, para uma amante das artes dramáticas, descer do palco e encarar a vida real.
É nesse momento, quando as luzes se apagam e a maquiagem já está precisando de alguns reparos, que me encontro com o editor de textos. Nada de amizades, pois nossa relação é - ou pelo menos deveria ser - essencialmente profissional. Separar a realidade do faz-de-conta nem sempre é fácil. Afinal, a vida não é um grande teatro?